Editorial
A Psiquiatria Consiliar –Ligação e Psicossomática (C/L) Portuguesa continua o seu desenvolvimento através de projectos que contribuem para dar maior eficiência à prática da Medicina no nosso País.
Será nesse sentido marco miliar o próximo Encontro, em Janeiro de 2004, sobre as (In)Comunicações da Medicina no “labirinto” da Saúde (vide programa nesta Revista).
Também se prevê para o ano de 2005 o II Congresso Luso-Brasileiro de Psiquiatria Consiliar/ Ligação ( Inter-Consulta ) - acordo ajustado após deslocação ao Brasil dum dos membros da actual Direcção (Dra. Ana Maria Moreira).
Por outro lado, os serviços de Saúde Mental do Ministério que nos tutela, sob a coordenação incentivadora da Dra. Maria João Heitor reuniu um conjunto de psiquiatras interessados no desenvolvimento da Psiquiatria CL. Foi efectuado inquérito em todo o País sobre a forma como tem sido efectuado o modo de estar psiquiátrico nos Centros de Saúde e nos Hospitais Gerais. Também foram solicitados pareceres sobre o que se podia fazer para futuro neste domínio.
Entretanto trabalha-se em Guias sobre critérios de diagnóstico e de intervenção a nível terapêutico global com vista a melhorar a qualidade do serviço médico aos doentes que nessas Instituições apresentam morbilidade psiquiátrica.
Neste âmbito o Grupo Português de Psiquiatria C/L mantém as suas acções de formação e de investigação – como tem acontecido desde a sua fundação e esta Revista disso tem dado testemunho vivo.
Guimarães Lopes
CO-IN-SIDÊNCIAS
Paula Carriço
Resumo: Os autores abordam inicialmente algumas questões relativas às particularidades do modo como a sida é vivida pelos pacientes toxicodependentes. Abordam posteriormente algumas dificuldades que, enquanto técnicos, têm sentido na relação com toxicodependentes com sida ou seropositivos.
TRABALHO COMO FORMA DE DEPENDÊNCIA1
Helder Machado*
Há quem tenha um corpo, sem dele ter perfeita consciência. Nem todos fazem por merecer o seu corpo. Talvez tivessem sido privados sensorialmente de o fazer desde os primórdios. Daí a relação que estabelecem com o seu corpo ser de posse e não de conhecimento íntimo. Deixar que ele se cale e se submeta, é permitir a activação insidiosa dos mecanismos não só da dependência, mas também do stress e da somatização!
O corpo livre e inteligente apreende, cria significados, desdobra-se intencionalmente no espaço e no tempo. Fixando-se rigidamente nos movimentos necessários à sobrevivência do organismo e da espécie, como no caso dos animais, corre demasiados riscos. Situados num ambiente cultural, mais ou menos rico de acontecimentos, precisamos de ter à nossa disposição um amplo leque de possibilidades motoras e intelectuais para a realização das tarefas a que nos propomos. Assim alimentamos a nossa corporalidade. Quando o trabalho nos torna dependentes renegamos essas possibilidades. Ao negligenciar a sua corporalidade, o dependente do trabalho perpetua o seu sofrimento.
1 Apresentação proferida no XX Encontro do Grupo Português de Psiquiatria Consiliar/Ligação e Psicossomática realizado em Leiria em Novembro de 2002 e subordinado ao tema "(IN)dependências"
*Professor na Fac. Ciências Biomédicas Abel Salazar
FENOMENOLOGIA DO INEBRIAMENTO
Raul Guimarães Lopes
Todos já passamos, pelo inebriamento. É próprio dos seres humanos. Quem não se sentiu alguma vez enlevado por um poente junto da pessoa amada? Entende-se perfeitamente esse pathos quando se alcança algo de imperecível. Um outro exemplo, o inebriamento musical. Quando ouvimos o Hino à Alegria de Beethoven parece que nos evadimos de nós próprios e alcançamos outras esferas do sentir. Inebriamo-nos! Mas tal forma de existir dura um instante, dura enquanto há suspensão do tempo cronológico. O instante, na sua acepção existencial, pode, em posterior projecção física, tanto durar fracções de segundo como horas.
Quando viciamos os meios de procura do inebriamento entramos numa espiral cada vez mais curta entre a necessidade e a satisfação.
Do ponto de vista antropológico sair de si pode ser entendido como existir (ex-sistere) e também como “inebriar-se”. O inebriamento é o estado dessa saída, desse outro modo de existir diferente do anterior. Mas para considerarmos a essência do inebriamento teremos de introduzir o conceito de temporalidade.
A temporalidade traz consigo história pois é criativa. Não é tempo físico nem tempo cronológico externos à pessoa. As obras humanas, estéticas, éticas ou religiosas, acontecem na temporalidade em que actuo e em que me realizo como ser espiritual. Inebriar-se não é exactamente esta realização. Acontece antes da obra, do resultado. Sai-se do inebriamento, artificialmente provocado (levando à dependência), com o vazio e não com o entusiasmo. Com a rotina e não com a criatividade. Com o transiente e não com o perene. O falseado inebriamento é desvalorização humana.
CONTRIBUIÇÕES PARA UMA DEFINIÇÃO DE DEPENDÊNCIA SEXUAL
Resumo: Com base numa revisão bibliográfica, propõe-se uma breve análise dos discursos sobre os comportamentos sexuais, focando a moral pública dominante, num passado próximo. São, também, objecto de análise, os contextos de emergência de sexualidades múltiplas e de conceitos como compulsividade, adicção ou de dependência sexual. Num segundo momento, apresenta-se alguns dos “discursos” sobre a natureza daqueles comportamentos e de que forma os mesmos são lidos no quadro mais amplo que é o das dependências.
Palavras-chave: comportamentos sexuais; sexualidades múltiplas, análise do discurso; adicção sexual; compulsão sexual.
DEPENDÊNCIA DE COMPRAS2
Maria do Carmo Cruz, Licínia Carvalho Silva & Nuno Neves
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O sujeito sente um impulso irresistível ou necessidade de comprar. |
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O impulso de compra é vivido como intrusivo e o sujeito tem comportamentos de resistência. |
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O sujeito experimenta uma tensão crescente que só alivia comprando. |
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O impulso é desencadeado por sensações de tristeza, de solidão, de ira, raras vezes de alegria. |
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Compra como vingança, auto-destruição, desejo de ser resgatado, ilusão de triunfo... |
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Substituição do apoio emocional por bens materiais. |
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Maior frequência de perturbações depressivas, da ansiedade, alimentares e dependências. |
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Comorbilidade com perturbações do controlo dos impulsos:cleptomania, jogo patológico, tricotilomania... |
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Frequente associação com as perturbações de personalidade borderline, obsessiva ou evitante. |
2 Apresentação realizada no XX Encontro do Grupo Português de Psiquiatria Consiliar/Ligação e Psicossomática realizado em Leiria em Novembro de 2002 e subordinado ao tema "(IN)dependências"
RESSENÇÃO DE LIVRO
“AIDS TRAUMA AND SUPPORT GROUP THERAPY” Martha A. Gabriel, Free Press, New York, 1996
A Drª Martha Gabriel é professora associada na Universidade de Nova York na escola de Serviço Social e foi supervisora de grupos de apoio durante oito anos na ´Gay Man’s Health Crisis´.
O livro que ela escreveu divide-se em cinco capítulos: Aids Trauma and Support Group Theory; Definition, Planning, Populations and Stucture for Support Groups with PWA; Special Issues and Considerations in Support Groups with PWA; Countertransference Reactions in Facilitators of PWA Support Groups; Secondary Traumatic Stress Reactions in AIDS Group Practicioners.
No primeiro capitulo é apresentada a conceptualização da Sida como um evento traumático e a capacidade terapêutica demonstrada pelos grupos de terapia de apoio através de três factores: ajuda mútua, ‘empowerment’ ou fortalecimento pessoal e estabelecimento de elos afectivos com os outros.
No segundo capítulo são apresentadas várias questões de ordem técnica a ter em conta na formação de um grupo de apoio a pessoas seropositivas, prestando atenção especial a casos de subgrupos populacionais como as mulheres, os toxicodependentes e os homosexuais.
No terceiro capítulo são abordadas cinco situações mais importantes neste tipo de grupos, a saber: a confidencialidade, o aparecimento de sinais de demênciação num dos elementos, a tuberculose, o suicídio e a morte de um dos elementos. Todas estas situações reais contribuem para a específicidade deste tipo de grupo de apoio e para as quais o dinamizador do grupo tem de estar preparado de antemão.
O quarto capítulo, que é um dos mais importantes, já que é abordado o conceitode contratranferência, elemento decisivo para que o condutor do grupo perceba através da identificação das suas próprias reacções e sentimentos o que o grupo está a comunicar e/ou o que um dos elementos do grupo possa estar a expressar em termos de vivência interna. Numa primeira parte é definido e ilustrado o conceito de contratransferência e os vários tipos de contratransferência segundo vários autores. Numa segunda parte é ilustrada a aplicabilidade deste conceito no setting grupal e a sua utilidade no manejo de situações mais frequentes nestes grupos de apoio, nomeadamente a angústia de morte, omedo de ser contagiado, a impotência, a raiva e a inveja.
O quinto capítulo é totalmente dedicado ás consequências nefastas que este tipo de trabalho continuado pode ter sobre os psicoterapeutas. È conceptualizado que os psicoterapeutas serão sujeitos a um processo de stress traumático secundário, socorrendo-se de conceitos tão variados como o de Burnout, Traumatização indirecta, Culpabilidade do sobrevivente, Anestesia psíquica, comcluindo-se que será importante e preventivo que cada psicoterapeuta tenha o apoio de um supervisor de grupo e também tenha o seu grupo de apoio.
É um livro que reflete a sua origens, nomeadamente na bibliografia que é quase na sua totalidade norte americana e na sua não filiação a uma escola de psicoterapia de grupo ou de grupanálise que lhe sirva de base inspiradora. Achamos que poderia ter havido uma melhor sistematização no que respeita á contratransferência e ao manejo de situações grupais típicas. Os capitulos dois e três em que são abordadas as questões práticas sobre a formação de um grupo e as situações mais importantes neste tipo de grupo deixa o leitor/futuro psicoterapeuta de grupo de sobreaviso para estas situações evitando ser apanhado desprevenido. Para quem já tem treino em psicoterapia de grupo este livro é válido sobretudo como uma experiência partilhada em que o terceiro capítulo é aquele que oferece maior novidade ao destacar as angústias mais frequentes vividas por seropositivos, mas que provavelmente e com a excepção dos sinais de demênciação todas terão a ver com a angústia e de morte e de separação.
Trouxemos hoje este livro com o intuito não só de o divulgar mas também de chamar a atenção para um vasto campo aonde os profissionais da saúde mental podem intervir. Lembrava que na instituição em que um de nós trabalha treze por cento das primeiras consultas são seropositivos subindo este número para trinta por cento se considerarmos só os que se injectam, isto é, um em cada três doentes quando chega á primeira consulta ou já sabe que é seropositivo ou fica a sabê-lo após os resultados dos exames analíticos. Se os números forem semelhantes nas outras instituições, representam um grande desafio não só aos responsáveis mas sobretudo aos técnicos. Que a leitura deste livro possa ser um modo de alguém iniciar uma intervenção psicoterapêutica junto destes doentes.
A. Valente B. J. Raio
SUBSCRIÇÕES
A Revista de Psiquiatria Consiliar publica dois números por ano, em Maio e Novembro, dois números formam um volume. O preço de cada volume (2003) é para instituições 7,5€, para subscritores privados 5€, cada número 3€.
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