Editorial
A Psiquiatria C / L é um constructo teórico-prático que engloba as vertentes psicológicas, emocionais e comportamentais ligadas à doença orgânica.
A doença orgânica tem repercussões nas atitudes e vivências do indivíduo que a sofre, decorrentes não só dos medos e receios que as próprias patologias provocam, mas também pelas consequências que as disfunções e o sofrimento acarretam para a vida e para as tarefas do dia a dia.
Outra vertente a realçar é o verdadeiro entrelaçamento que existe entre a sintomatologia decorrente da doença física e a que se manifesta concumitantemente e que tem a sua génese nas ditas emoções que acompanham a doença.
É neste enfoque que o psiquiatra, o médico se deve centrar para perceber a linguagem do doente, discriminar as verdadeiras etiologias, compreender as vivências e as lucubrações da pessoa que procura ajuda e que tantas vezes se vê desvalorizada por uma visão positivista do clínico.
É imperativo que uma nova cultura se expanda nos profissionais de saúde assente numa perspectiva mais holistica, que obriga a manter a “moleirinha” mais aberta às explicações da doença e entender que esta não é só e apenas um órgão doente.
O modelo médico tem vindo a ser dominado por modelos puramente organicistas, deixando as vivências e a compreensão do doente sem qualquer suporte, dando este vasto campo à exploração dos curiosos e dos charlatães.
É igualmente importante que as Faculdades de Medicina sejam escolas atentas aos vários saberes e consigam incorporar nos curricula as disciplinas que ajudam a entender o homem e a dinâmica do mundo actual.
É um trabalho metódico, persistente e já visível aquele que os psiquiatras têm vindo a desenvolver há anos. Trabalho redobrado também porque exige um esforço, um incómodo exercido todos os dias, virado para os vários espaços onde se efectua o acto de saúde.
Acontece Psiquiatria C/L quando o psiquiatra vai aos cuidados primários e no ombro a ombro com o médico de família, ouve e observa os doentes; também acontece quando a partilha se dá com os colegas hospitalares nas variadíssimas consultas em que a psiquiatria é chamada a concorrer para ajudar a debelar o sofrimento.
A oncologia, o alcoolismo, a Sida, a sexologia, as doenças metabólicas, as doenças neurológicas e tantas outras, são as experiências que nos têm ensinado que esta partilha só traz vantagens ao doente.
É uma prática clínica que pode e deve ser vista como enriquecedora do exercício médico, baseada nos contributos diversificados e ao mesmo tempo sistemáticos dos vários saberes e competências.
O conselho, a opinião, a explicação e interpretação de um dado clínico, devem ter repercussões não só no diagnóstico, mas estenderem-se para a terapêutica e evolução da doença.
Este movimento da Psiquiatria C/L saindo dos muros hospitalares e das clínicas psiquiátricas ao encontro da restante medicina, engloba-se numa tendência mais ampla e geral de não espartilhar o doente na visão restrita e parcelar de cada uma das especialidades.
È para cimentar, expandir e dialogar que se fez o Grupo Português de Psiquiatria Consiliar / Ligação e Psicossomática, para trazer mais gente a esta forma de estar e viver a especialidade, para facilitar as trocas de experiência e o diálogo sobre os casos e metodologias, num constante rediscutir dos temas.
Deste modo todos ficamos mais ricos e competentes, dando uma oportunidade para reflectirmos na nossa prática.
António Reis Marques
VOANDO ENTRE A TEMPESTADE E A BONANÇA
Paula Carriço & Paula Carrinho
Resumo: O presente trabalho visa equacionar a articulação entre o CAT da Figueira da Foz e a Maternidade Bissaya Barreto no acompanhamento de grávidas toxicodependentes. Esta síntese surge no âmbito duma Jornada de Reflexão sobre Serviço Social e Cuidados de Saúde Primários.
O PAPEL DO MÉDICO DE FAMÍLIA PERANTE TOXICODEPENDENTES E SEUS FILHOS
João Rodrigues & Paula Carriço
Resumo: O tratamento e recuperação do toxicodependente e por sua vez o acompanhamento dos seus filhos apresenta grandes dificuldades, pela complexidade dos factores etiopatogénicos em causa, tudo apontando que se está na presença que um GRUPO DE ALTO RISCO, nos planos biológico, social e psíquico, além de FAMÍLIAS “DOENTES”. Os imperativos terapêuticos nem sempre encontram a resposta mais adequada na relação médico-doente clássica, obrigando quase sempre a uma acção terapêutica diferenciada em equipa multidisciplinar. Contudo, é possível, desejável e útil a participação do Médico de Família num programa integrado e comunitário de luta contra a toxicodependência, devendo sempre privilegiar-se um modelo multidimensional em que exista uma estreita colaboração e articulação entre o Médico de Família e os CAT´s ou afins. Nessa perspectiva seria fundamental, também em relação aos filhos e suas famílias, apoia-los preventivamente com programas próprios em que os CAT´s (e não os CS) se tornassem coordenadores de uma estratégia de apoio que envolva MF, Pediatras, Pedopsiquiatras, Psicólogos, Serviços de Obstétricia e Neo-natologia, além de outros serviços de apoio social de acordo com a área geográfica de influência de cada CAT.
COMORBILIDADE DE DOENÇAS ORGÂNICAS E PSÍQUICAS
Siegfried Weyerer1 & Raul Guimarães Lopes2
Resumo: Os Autores estudam a comorbilidade em estudos de campo, relacionando diversas doenças orgânicas com doenças psíquicas. É enfatizado o elevado risco de comorbilidade nos idosos (= 4,75). Foi também considerado o caso da diabetes tipo II.
Palavras-chave: Comorbilidade. Estudos de campo. Idosos. Diabetes. Hipertensão
1 Investigador no Zentralinstitut für Seelische Gesundheit (Instituto Central de Saúde Mental) de Mannheim, Alemanha. 2 Bolseiro no Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim, Alemanha. Professor de Medicina.
PSIQUIATRIA E SIDA
Cláudio Laureano & J.Matos Cabeças
Resumo: Os psiquiatras são cada vez mais solicitados na avaliação de pacientes com perturbações psiquiátricas relacionadas com a infecção pelo HIV/SIDA. Os autores abordam alguns aspectos psicológicos e psiquiátricos peculiares dos indivíduos infectados pelo HIV e descrevem os principais quadros neuropsiquiátricos que habitualmente apresentam. Discute-se, igualmente, a orientação, no plano farmacológico e psicoterapêutico, mais adequada para estes problemas.
Palavras-chave: Psiquiatria, SIDA, HIV
PERTURBAÇÃO DE SOMATIZAÇÃO
Cláudio Laureano
Resumo: O autor faz uma introdução sobre os conceitos de Somatização, Perturbações Somatoformes e evolução histórica da categoria diagnóstica Perturbação de Somatização. Caracteriza-se a epidemiologia, etiologia, clínica, diagnóstico e diagnóstico diferencial da Perturbação de Somatização. Apontam-se algumas directrizes do acompanhamento e tratamento destes pacientes particularmente no que concerne às técnicas psicoterapêuticas. Conclui-se que uma adequada intervenção pode economizar custos aos serviços de saúde e melhorar a qualidade de vida destes pacientes.
Palavras-chave: Perturbação Somatização, Perturbações Somatoformes, Psicoterapias
SUBSCRIÇÕES
A Revista de Psiquiatria Consiliar publica dois números por ano, em Maio e Novembro, dois números formam um volume. O preço de cada volume (2004) é para instituições 7,5€, para subscritores privados 5€, cada número 3€.
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