PSIQUIATRIA DE LIGAÇÃO EM ONCOLOGIA: reflexões a partir de um estudo em doentes internados em cirurgia
Zulmira Santos, Graça Santo, Orlando Guete, Guadalupe Rojas, Carla Vicente, Luís Ferreira
Resumo: As AA realizaram um estudo retrospectivo procurando avaliar a prescrição de psicofármacos em doentes oncológicos, em unidade cirúrgica, bem como, os padrões de referência de doentes oncológicos para psiquiatria. A 56% da amostra foram prescritos psicofármacos. Os ansiolíticos e hipnóticos foram os mais prescritos (78%), os neurolépticos em 13% e 9% dos pacientes fizeram terapêutica com antidepressivos. Para 4% do total de doentes foi requerida observação psiquiátrica. A reacção de ajustamento e a depressão reactiva foram os diagnósticos mais comuns. Estas entidades correspondiam à grande maioria dos diagnósticos realizados (67%). Antecedentes de doença afectiva unipolar foram detectados em 33% dos doentes referenciados. Os resultados agora apresentados indiciam que no nosso País se verifica ainda uma subutilização dos psicofármacos em doentes oncológicos, não se explorando, eventualmente, todo o seu potencial terapêutico. Os doentes com neoplasias são pouco referenciados para Psiquiatria, sobretudo se atendermos à elevada prevalência de perturbação psicológica nesta população.
A PERTURBAÇÃO PSIQUIÁTRICA EM DOENTES ONCOLÓGICOS - Estudo de 159 doentes no Centro Regional de Oncologia de Coimbra
Emília Albuquerque
Resumo: O objectivo deste estudo foi obter informação acerca da morbilidade psicológica e psiquiátrica em doentes oncológicos. Foram avaliados 159 doentes enviados para uma primeira consulta de psiquiatria e feito um diagnóstico de acordo com os critérios do DSM-IV. Os diagnósticos mais frequentes foram perturbação de adaptação (28.5 %), depressão major (17.3% ) e síndrome cerebral orgânico, (13.2%). As perturbações do humor, psicoses, alcoolismo e perturbações da ansiedade foram diagnósticos frequentes. Parece evidente, contudo, que muitos doentes com problemas emocionais e psiquiátricos não são devidamente identificados e orientados, sendo necessário melhorar os métodos de screening e detecção precoce das perturbações emocionais.
PSICOPEDAGOGIA TERAPÊUTICA - a propósito duma paciente com neoplasia
Raul Guimarães Lopes
Resumo: O Autor expõe um caso clínico com patologia neoplásica que acompanhou em Psiquiatria CL hospitalar e apresenta o programa de psicopedagogia terapêutica que seguiu.
Palavras-chave: Neoplasia. Psiquiatria CL. Psicopedagogia Terapêutica. Informação. Aconselhamento. Acompanhamento em crise. Psicagogia. Sociagogia.
PSICOFÁRMACOS E ANTINEOPLÁSICOS - As controvérsias das interacções farmacológicas
Joana Serra & Denise Alexandra
Resumo: Os psicofármacos desempenham um importante papel no tratamento e controlo da psicopatologia do doente oncológico. As interacções entre os psicofármacos e antineoplásicos podem inadvertidamente reduzir ou aumentar os seus efeitos, resultando numa falha terapêutica ou num aumento da toxicidade. Tal facto pode afectar adversamente o tratamento do doente, contribuir e incrementar a morbilidade, e até prolongar o tempo de tratamento ou hospitalização. Eis pois a controvérsia apresentada às equipas terapêuticas responsáveis por tais pacientes, evidentemente enquadrados no todo que constitui a sua problemática oncológica. As autoras tentam clarificar estes aspectos, revendo algumas considerações da psicofarmacologia na esfera da oncologia, nomeadamente da farmacocinética dos psicofármacos e antineoplásicos, e as suas possíveis implicações clínicas.
Palavras-chave: psicofármacos, antineoplásicos, citocromo P450, enzimas, interacções.
QUALIDADE DE VIDA NA DOENÇA ONCOLÓGICA
Graça Santos & Zulmira Santos
Resumo: Nas últimas décadas têm-se verificado avanços significativos no tratamento do cancro, que permitem a cura de alguns tipos de cancros ou maior tempo de sobrevida. Os tratamentos mantêm no entanto um número elevado de efeitos secundários com impacto negativo sobre a capacidade de funcionamento e bem-estar físico e emocional do doente. Neste contexto a avaliação da qualidade de vida (QDV) adquire grande relevância. No presente artigo revê-se o conceito de QDV, a importância da sua avaliação nas opções terapêuticas e na investigação, nomeadamente em psicooncologia. Fazem-se algumas considerações sobre a dificuldade de avaliação da QVD e refere-se a título exemplificativo um instrumento de avaliação, o Quality of life Questionnaire (QLQ-C30) elaborado pela EORTC (European Organization for Research and Treatment of Cancer).
RESSENÇÃO DE LIVRO
Medical Complications of Psychiatric Illness
By
Claire Pomeroy, M.D.
James E. Mitchell, M.D.
James Roerig, Pharm D., B.C.P.P.
Scott Crow, M.D.
Of American Psychiatric Publishing, Inc. 2002
Os livros que nos números anteriores da revista temos vindo a apresentar enquadram-se geralmente – e como com certeza já repararam – na área da Psiquiatria C/L e Psicossomática. Desta forma os temas que abordam têm-se quase sempre inserido nos aspectos psiquiátricos dos doentes que procuram os outros ramos da medicina.
Este, pelo menos aparentemente, foge ao que tem sido o nosso hábito. O tema de que se ocupa é um pouco como que ao contrário dos anteriores. Como se pode ver pelo título, estuda as complicações médicas dos doentes com patologia psiquiátrica. Por tal e dado que o conteúdo corresponde ao título é, na nossa opinião, um livro muito importante para todos aqueles que se ocupam dos doentes do foro psiquiátrico nomeadamente dos que estão em regime de internamento. Tanto mais – e o que vou dizer é uma opinião meramente subjectiva - que por vezes parece que nos esquecemos que para além de psiquiatras também somos médicos, o que origina que muitos aspectos importantes desta área sejam por nós negligenciados. Este é um bom livro para vermos dos possíveis inconvenientes de tal atitude.
O livro está dividido fundamentalmente em duas partes. Na primeira trata dos cuidados gerais da “saúde médica” a que os doentes do foro psíquico devem estar sujeitos. Na segunda apresenta as perturbações e complicações “médicas” mais comuns em cada um dos principais “clusters” de diagnóstico psiquiátrico.
Esta 2ª parte é, assim, constituída por 6 “clusters” de diagnósticos – sendo cada um deles constituído por temas diversos a saber: o primeiro por – Perturbações afectivas, ansiosas, somatoformes e demência; o segundo por – Esquizofrenia e outras perturbações psicóticas; o terceiro por – Perturbações factícias; o quarto por –Perturbação de auto agressão; o quinto por – Perturbações alimentares; o sexto por – Abuso de álcool e outras drogas.
Em todos eles os autores dão substancial informação das principais e possíveis complicações médicas e apresentam gráficos de fácil leitura que nos orientam primordialmente nas dificuldades de diagnóstico em face da sintomatologia dos doentes e nos fornecem as orientações terapêuticas mais aconselhadas bem como nos informam das complicações e dos efeitos laterais das mesmas.
Pela sua estrutura pode ser lido duma forma não sequencial sendo, por isso, um livro de fácil consulta durante a clínica o que advém por conseguinte em mais uma vantagem. É um livro actual e que pode servir de apoio à psiquiatria clínica do dia a dia não só no que se refere às dificuldades do diagnóstico mas também às decisões da terapêutica a prescrever.
Em suma, mais um excelente livro que recomendamos veementemente não só aos Psiquiatras e outros Técnicos de Saúde Mental mas também aos internistas e médicos de família e que após a sua leitura deve ser conservado como livro de consulta na nossa actividade clínica.
Aucíndio Valente
RESSENÇÃO DE LIVRO
“PARA ACABAR COM AS TOXICODEPENDÊNCIAS” Jean Pierre Jacques, Climepsi, 2001
Este livro que na edição portuguesa tem o subtítulo “Psicanálise e fornecimento legalizado das drogas”, é escrito por um psicanalista belga que à data da publicação do original (1999), tinha quinze anos de prática “de escuta” de dependentes de drogas, “pretende criticar o pensamento proibicionista e as suas consequências policiais e penitenciárias, nos sujeitos ditos toxicómanos, com uma abordagem clínica cujo fio condutor seja fornecido pelos conceitos fundamentais da psicanálise”.
Empreendimento já realizado por outros, mesmo entre nós. Relembro os livros do Prof. Amaral Dias. No entanto o modelo “de escuta” do sujeito que consome substâncias proibidas, não é o modelo prevalecente na estrutura pública que no nosso país trata os toxicodependentes, que ao ser dirigida por um Juiz assume-se proibicionista e controladora.
O livro é escrito com responsabilidade não se furtando aos vários paradoxos que o assunto envolve, assenta em argumentação sólida, exposta com clareza suficiente, embora se sinta que a tradução não soube ultrapassar as particularidades culturais do país de origem o que exige do leitor um esforço adicional.
O que de mais interessante o livro tem é que nos desafia a continuamente pensarmos a nossa prática clínica, no sentido de em conjunto com o sujeito toxicómano, procurarmos o(s) significado(s) da sua prática, dando um sentido ao seu agir (que é o consumo da substância). Mas é precisamente aqui que está o primeiro e o grande obstáculo, chegar à fala, à palavra, em sujeitos que permanentemente agem actuam.
O autor desmistifica entre outros aspectos:
- a procura do prazer pelo toxicómano que será antes a anestesia de uma dor inconsciente.
- A prevenção do tipo “não à droga”, “droga é morte”, que só cria estereótipos que fazem existir a toxicomania nas representações sociais.
Introduz o masoquismo e a fuga ao incesto como dimensões presentes e importantes nos toxicómanos.
Defende as práticas de substituição como mero paliativo, que oferece um quadro social e um estatuto de sujeito compatível com uma procura de ressocialização e com a emergência de um eventual pedido voluntário de mudança.
Aponta também os limites de compreensão que a psicanálise tem e os perigos de normalização em que pode incorrer.
Creio que no actual panorama editorial português é um livro único e que eu arriscaria a considerar de leitura obrigatória.
A. Valente J. Raio
SUBSCRIÇÕES
A Revista de Psiquiatria Consiliar publica dois números por ano, em Maio e Novembro, dois números formam um volume. O preço de cada volume (2004) é para instituições 7,5€, para subscritores privados 5€, cada número 3€.
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